A gente engole porque acredita em mito

A gente um é povinho besta mesmo, não é? Um povo que acredita em qualquer bobagem. Não é a toa isso. Deve ser uma defesa que desenvolvemos ao longo da evolução da espécie para sobreviver a tanta roubalheira, tanto sofrimento, tanta falta de esperança. Então a gente compensa acreditando em qualquer história que nos contarem. Se sair no Fantástico, então, melhor. 


 Pense na quantidade de dinheiro que roubaram de baixo de nossas fuças, sempre com uma boa desculpa que engolimos felizes. E não é só de políticos que vive nosso bolso e alma vazios. A gente acredita em qualquer Zé Mané com uma boa lábia. Logo agente que se acha muito esperto. 


 Religiosos extorquem com maquininhas de cartão de crédito nos cultos, nas televisões, em rede nacional. Um médico especializado em estupros violenta mais de 50 pacientes na sua clínica. Padres pedófilos, políticos ladrões, espiritualistas canalhas, curandeiros, mentirosos, malandros e golpistas. Qualquer um que queira se dar bem nesse País, é só empreender. Na semana passada um exemplo grotesco dessa nossa vocação por ser enganado. Durante anos João de Deus assediou mulheres que o procuravam. Mais de 300 denúncias de assédio e ainda há quem defenda que o sujeito está sendo perseguido. A gente quer acreditar. A gente é brasileiro e não desiste nunca de crer no incrível. São narrativas tristes que se misturam à nossa esperança. A gente engole porque acredita em mito. 


Falar em mito, semana passada trouxe também o dinheiro suspeito nas contas da família Bolsonaro e assessores. Mais um mito. Não vai dar em nada, porque vai aparecer, é claro, uma narrativa para a gente engolir. A gente é assim e se orgulha de nossa boa fé. A gente acredita e sempre vai ser assim, porque em pé de goiaba não dá jabuticaba. Acreditar, desmascarar, punir, acreditar… e assim passamos de um engano para outro. 

#tenhodito